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                    O telescópio de Schmidt é essencialmente uma câmera fotográfica de grandes dimensões , extremamente precisa e de grande luminosidade. O sistema óptico é de grande simplicidade e livre de aberração de esfericidade e coma o que o torna apto a fotografar mais de 20o no céu , enquanto um telescópio baseado em espelho parabólico consegue precisão apenas em 0,1o .  [1]

                    Bernhard Schmidt em 1930  , ao deparar-se com o desafio de se fotografar grandes áreas celestes com precisão , elaborou um instrumento que combinava espelhos e lentes. O seu instrumento , conhecido posteriormente como Câmera de Schmidt , emprega um espelho esférico que permite reunir em uma única superfície focal a imagem de uma grande área do céu  , ainda que as imagens não sejam nítidas como a dos espelhos parabólicos devido a aberração esférica. No entanto , os espelhos parabólicos têm grande  nitidez nas imagens de objetos colocados exatamente a sua frente , mas distorcem as imagens de objetos colocados longe do seu eixo óptico , aberração conhecida como coma . Schmidt reuniu em um único instrumento as vantagens dos dois espelhos , contornando o problema da falta de nitidez do espelho esférico com a introdução de uma lente corretora de formato peculiar colocada no raio de curvatura do instrumento.  [2]

   

 

 Na figura 1 temos o efeito da aberração esférica típica de um espelho esférico de curta distância focal

   

                 

 

 O corretor de Schmidt atua como lente convergente em sua porção central , fazendo com que os raios centrais se encontrem em um ponto mais próximo ao espelho , enquanto que as bordas do corretor atuam como lente divergente , fazendo com que os raios se encontrem em um ponto mais distante , coincidente com aqueles e produzindo desta forma  uma imagem nítida. Isto se dá também para os raios que penetram oblíquamente no instrumento , uma vez que a curvatura da lente corretora é muito pequena e ela está colocada no raio de curvatura. [6]

     Na figura 2 temos o sistema corrigido da aberração esférica.

 

 

 

 

                                Dois métodos podem ser empregados para geração de curvas asféricas , o primeiro , mais adequado para sistemas altamente luminosos , ou seja , F/1.0 ou menor é o do polimento zonal localizado que se serve de ferramentas em forma de estrelas ou pétalas que promovem desgaste diferencial ao longo do raio do disco de vidro do corretor.

                                 O segundo método , mais elegante e classicamente empregado é o uso da deformação gerada no vidro quando submetido a uma tensão mecânica proporcionada pela diferença de pressão entre o interior de um recipiente parcialmente evacuado e a atmosfera.

 

                                A figura 3 traz o processo de deformação da placa tendo o efeito exagerado para facilitar o entendimento:

          A placa de vidro plano paralelo ( A ) é colocada sobre uma panela de vácuo , geralmente metálica  provida de uma válvula de regulação da entrada e saída de ar. 

           A placa é vedada com graxa de silicone e o vácuo parcial é aplicado. Uma bomba mecânica ou um motor de geladeira pode ser usado para este fim visto que se trata de vácuo parcial facilmente obtido. ( B )

           A ferramenta esférica previamente preparada com um raio de curvatura uniforme é aplicada sobre a placa deformada . O desgaste se faz com abrasivo 500 sendo que a primeira área desgastada é um anel concêntrico a 70% do raio , ponto este de maior atrito com a ferramenta. ( B )

            Após atingido o estágio de uniformidade do desgaste e o polimento efetuado, o corretor é retirado da panela de vácuo e a face inferior volta a ser plana , enquanto a face superior , desta forma trabalhada , exibirá a curva asférica desejada que coincidirá com boa aproximação aquela necessária a correção do espelho. ( C )

             A flecha Zc é medida com um esferômetro com braço de comprimento igual ao raio da placa. O ar é lentamente retirado até se atingir a medida Zc previamente calculada.

             Após o desgaste e o polimento efetuados , quebra-se o vácuo e o corretor volta a sua forma original , livre de tensões . Nesta situação , a face inferior retorna a planicidade , enquanto a face superior passa da forma esférica para a asférica conforme o desejado , obtendo-se desta forma o corretor de Schmidt com razoável precisão. [5]

                            Seja a medida Z as diferenças de espessura da placa com curva asférica medidas a uma distância r a partir do centro.  A curva asférica satisfaz a equação : [3]

      (1)

                                    Os dois termos iniciais da equação (1) são suficientes para descrever os corretores de câmeras com luminosidades até F/2 com boa aproximação. Desta Forma , temos a equação (2) do perfil asférico dada por :

     (2)

                                    Os coeficientes A e B são dependentes do índice de refração , da relação focal do instrumento , da abertura e da posição da zona neutra , parâmetros a serem discutidos a seguir .

                               Considerando-se o índice de refração do vidro comum   N=1,51  ( N ) ;  a zona neutra , onde os raios não sofrerão desvio , localizada a 70% do raio ( D )  D=0,7 ; o fator de potência do corretor ( g ) que para o caso de um corretor de Schmidt clássico , g=1 ; o raio do corretor ( a ) , no caso a=100 ;   a razão de Poisson ( s ) para o vidro igual a 0.23 ;    a distância focal do espelho ( F ) , no caso F = 420 mm   e trabalhando-se apenas um lado do corretor , temos q =1, os coeficientea A e B da Equação (2) podem ser calculados :

  (3)     (4)

                             A flecha da ferramenta convexa , S , medida com o mesmo esferômetro com braços de 100% do raio  ( no caso = 100mm ) é obtida pela equação :

                                        Efetuando-se os cálculos para D=0,86 e D=0,70 nota-se que o valor de S e Zc são muito próximos e poderiam ser igualados , obtendo-se uma zona neutra não muito distante de 0,7a . Desta forma , simplificando-se as equações , pode-se obter um único valor de Zc que servirá tanto para a construção da ferramenta esférica como da deformação do corretor sob vácuo.

                                        Os parâmetros utilizados nesta câmera em particular são :

F = 420 mm      D = 0,70    a = 100 mm    q = g = 1    N = 1,51    o que dá como resultados :

Zc = S = 0,34 mm , o raio de curvatura da ferramenta convexa esférica , portanto , é de 14,4 metros.

    Segundo artigo publicado na Sky & Telescope , June , 1989 pp. 667 , o raio de curvatura da ferramenta também pode ser obtido com razoável aproximação pela equação ( 5 ) :  [4]

  (5)

                                    Onde R é o raio de curvatura da ferramenta , F é a distância focal do espelho e d é o diâmetro do corretor. Por esta equação , o raio de curvatura para a ferramenta da câmera aqui apresentada é de 14,8 metros.

 

BIBLIOGRAFIA :

[1]  BÖRNGEN , F. : Revista de Jena XVII (1981) 1 , 9 - 15.

[2] Ciência Ilustrada Vol. 6 ( 1972 ) , Ed Abril , 2558 - 2561.

[3] RUTTEN H., VENROOIJ , M. : Telescope Optics   , Willmann-Bell Inc 1988 , 71  - 78.

[4] LAI , L. : Sky & Telescope June 1989 , 664 - 669.

[5] MARX, S e PFAU, W. : Astrophotography with the Schmidt Telescope  , Cambridge University Press 1992 , 26 - 29.

[6] WILSON, R. N. : Reflecting Telescope Optics I , Springer Verlag 1996 , 144 - 160 .